01 de Outubro + A Braccia Aperte +

24 de setembro + "Persistem sob a pele" +

"Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele,
onde a memória os move.

Tacteiam, impolutos.
Tantas vezes o suor os traz consigo da memória,
que não tenho na pele poro através do qual
eles não procurem sair quando transpiro.
A pele é o espelho da memória."

Luís Miguel Nava

23 de setembro + Deslizando +

"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tento tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento."

Hilda Hilst

20 de setembro + "E se isso for algum defeito..."

São muitas as formas de dizer
Outras tantas as de sentir

São muitos os motivos pra correr
Outros tantos que ajudam a sumir

E eu ainda sou criança, num emaranhado de não dizeres
Num lanço que afrouxa, mas não desmancha

Eu ainda sou tantas, sou poucas, sou todas
Sentindo, querendo e pedindo,

Quase devota do seu sorriso perfeito
Rezando baixinho por te sentir desse jeito
Pra abrir os olhos de noite e te encontrar no meu peito
"Eis o melhor e o pior de mim
O meu termômetro, o meu quilate
Vem, cara, me retrate

Não é impossível
Eu não sou difícil de ler

Faça sua parte
Eu sou daqui, eu não sou de Marte

Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim

Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular


Em alguns instantes
Sou pequenina e também gigante
Vem, cara, se declara

O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder
Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo

Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber

Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular"


Infinito Particular
Marisa Monte

01 de setembro + Desdoçura +

Saí da exposição com uma constatação pesando em mim. Notei como solto e absorvo, como colido e escapo, e por fim, como lido com rompimentos. Todos eles. Lido de forma lenta, como se eu precisasse de tempos particulares para isso.

Minutos com mais de 60 segundos. Dias com bem menos de 24 horas. Tempos da Camila.

Talvez isso aconteça pela dificuldade que tenho em mergulhar em novas realidades. Talvez seja por isso que eu descole lentamente os pedaços de quem está partindo e mesmo quando sou eu quem procura a separação, o desenlace é sofrido. Os pedaços custam a desencaixar de mim.

Desde que saí da exposição tem um choro parado entre minha garganta e meus olhos. Não entra nem escoa. Não desce. Não lava nem alivia. Não derrama. Deve ser reflexo da coisa toda errada que andou remexendo minhas falidas gavetas intocáveis. Intocáveis.... Mentira!! Claro que são totalmente tocáveis! São felpudas, macias e acolhedoras!! Eu adoro sair por aí dizendo que sou uma fortaleza, mas minhas gavetas são facilmente reviráveis e as lembranças... poços e poças.

E ao deparar com meus avessos, encontro os restos do que meus rompimentos causaram em mim. Estão todos ali. Imperfeitos. Cortes e cicatrizes. Igualmente parados naquele ponto intraduzível da percepção.

Romper qualquer tipo de laço carrega em si uma dose de "desdoçura" tão grande que torna amargo e "inabsorvível" os tais "nunca deixarei de amar você", o "jamais morrerá" ou o "se estenderá em mim", dizeres, aliás, que compõem a carta recebida pela Sophie.

Romper é desistir do outro. E não há jeito "certo" de fazer isso. Essa desistência é a forma mais rápida que certas pessoas (eu, inclusive) encontram pra lidar com seus sinais internos, com coisas que não entendem em si mesmas. E saimos por aí rompendo o - muitas vezes injustificável - não mais sentir.

Diante de uma situação de término na qual sou deixada e não mais querida por aquele coração de quem eu era devota, minha sensação é algo como se estivesse sem casa, sem habitat, sem animais da mesma espécie, sem bando, sem matilha.

Como se eu esquecesse que posso ser porto, casa, amparo, braços, colo e abrigo e acreditasse nos poucos talentos que aquela desolação me permite exalar e exibir, enquanto fico ali, em luto.

Sinto como se as caixas fossem enormes e eu, pequena. Como se meu grito fosse infantil e como se minha porção mulher tivesse agora algo de frígida, algo de vidro arranhado. Sinto tremores e descompassos. Sinto qualquer coisa do tipo pós-furação. Casa "inarrumável"... restando apenas mudar-se dali, portanto...

+ Prenez Soin de Vous +

"Recebi uma carta de rompimento.
E não soube respondê-la.
Era como se ela não me fosse destinada.
Ela terminava com as seguintes palavras: “Cuide de você”.
Levei essa recomendação ao pé da letra.
Convidei 107 mulheres, escolhidas de acordo com a profissão,
para interpretar a carta do ponto de vista profissional.
Analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Esgotá-la.
Entendê-la em meu lugar. Responder por mim.
Era uma maneira de ganhar tempo antes de romper.
Uma maneira de cuidar de mim."

Sophie Calle



"Sophie

Há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seu último e-mail. Ao mesmo tempo, me pareceria melhor conversar com você e dizer o que tenho a dizer de viva voz. Mas pelo menos será por escrito.

Como você pôde ver, não tenho estado bem ultimamente. É como se não me reconhecesse na minha própria existência. Uma espécie de angústia terrível, contra a qual não posso fazer grande coisa, senão seguir adiante para tentar superá-la, como sempre fiz. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a “quarta”. Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as “outras”, não achando obviamente um meio de vê-las, sem fazer de você uma delas.

Achei que isso bastasse; achei que amar você e o seu amor seriam suficientes para que a angústia que me faz sempre querer buscar outros horizontes e me impede de ser tranquilo e, sem dúvida, de ser simplesmente feliz e “generoso”, se aquietasse com o seu contato e na certeza de que o amor que você tem por mim foi o mais benéfico para mim, o mais benéfico que jamais tive, você sabe disso. Achei que a escrita seria um remédio, que meu “desassossego” se dissolveria nela para encontrar você.

Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições sequer de lhe explicar o estado em que me encontro. Então, esta semana, comecei a procurar as “outras”. E sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Jamais menti para você e não é agora que vou começar.

Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…) e compreensível (obviamente…); com isso, jamais poderia me tornar seu amigo.

Mas hoje, você pode avaliar a importância da minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante da sua vontade, pois deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre as coisas e os seres e a doçura com a qual você me trata são coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.

Mas hoje, seria a pior das farsas manter uma situação que você sabe tão bem quanto eu ter se tornado irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único.

Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.

Cuide de você.

X"

26 de agosto + Quase um Pouco de Tudo +

20 de agosto + Travessuras da Camila Má +



A verdade é que a verdade diz
o que a mentira apenas ensaia dizer.


É engraçado querer sair por aí abraçando o mundo... ou pior: acreditando intimamente que isso seja mesmo possível... engraçadas e estranhas essas convicções infantis do ser humano... Quase sempre esquecemos de nos perguntar se aguentaríamos o tranco. Temos braço pra isso? Temos pulso? Talvez não. Então por que a gente quer tanto? Travessuras... travessuras...

31 de julho + Do que me Provoca +

"Tantas decepções eu já vivi
Aquela foi de longe a mais cruel
Um silêncio profundo e declarei:
“Só não desonre o meu nome”

Você que nem me ouve até o fim
Injustamente julga por prazer
Cuidado quando for falar de mim
E não desonre o meu nome

Será que eu já posso enlouquecer?
Ou devo apenas sorrir?
Não sei mais o que eu tenho que fazer
Pra você admitir


Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber
Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber


Perceba que não tem como saber
São só os seus palpites na sua mão
Sou mais do que o seu olho pode ver
Então não desonre o meu nome


Não importa se eu não sou o que você quer
Não é minha culpa a sua projeção
Aceito a apatia, se vier
Mas não desonre o meu nome

Será que eu já posso enlouquecer?
Ou devo apenas sorrir?
Não sei mais o que eu tenho que fazer
Pra você admitir

Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber
Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber"


Pitty, "Me Adora"

16 de julho + Em mim... +


"Here in your arms, everything seems to be clear
Not a solitary thing do I fear
Except when this moment comes near the dancing's end"

"Until", Sting

08 de julho + Pedidos +

Uma daquelas frases que por vezes não querem dizer quase nada, mas que são engraçadinhas e românticas.

Uma daquelas invasões que te deixam sem ar - ao melhor estilo pé na porta - e uma certa ponderação charmosa, com requintes de filme da Meg Ryan.

Umas coisas que talvez queiramos mesmo dizer, mas "sem perder a ternura". E que o sentir encontre caminhos possíveis e supere esse nó.

E que entre um sussurro e outro num final de noite, seja possível pronunciar alguma coisa que faça mesmo sentido, em meio ao que não se explica.

"Alguma invenção
Que faça o tempo parar esta tarde"

E você?
Já sabe o que vai pedir no dia de hoje?

(*) nas aspas, "Essa tarde", dos Paralamas do Sucesso

27 de junho + Desabafo pra tentar passar ilesa por uma tarde infinita e quase nublada +

Cansei de ficar parada em frente gôndolas, lendo rótulos e mais rótulos que me digam afinal pra é que serve aquele produto... Não podia ser algo como: seco, oleoso ou normal? precisa de tanta definição, como: agredidos pela química, agredidos pelo secador, secos nas pontas, tingidos, descoloridos, esponjados (esponjados?), queimados de sol... Ahhhh!!! Eu só quero um produto bacana pra lavar o cabelo!

Cansei de ter que decidir, planejar, formular rotas pra fugir do trânsito e sempre (sempre!) acabar fazendo algum caminho "alternativo", porém, que alguns metros depois se mostra um verdadeiro labirinto, cheio de carros impetuosos.

Cansei do rádio. Bom amigo de todas as horas, mas que nos últimos dias tem falado demais comigo e esses sinais... esses sinais... (ãhn?) sinceramente me cansam.

Cansei de ficar com cara de "quê", abrindo e fechando gavetas imaginárias, lavando roupa suja interna; Cansei de desejar que o céu feche e depois caia sobre nossas cabeças. Cansei de brigar comigo e com o céu. Cansei de olhar pra dentro. Cansei de contar os dias e de recolher os cacos. Cansei de virar as noites e os copos. Cansei de fechar os olhos e os braços.

Cansei da malhação na minha rotina. A gente sempre vira o ano bêbado e mente pro céu: "esse ano vou ficar mais tempo com meus amigos, me dedicar a algum curso legal, comer menos bobagem, ler mais e claro, malhar mais!", eis que esse ano fui mais fundo na questão da malhação, mas as vezes não dá... e daí, claro, vem uma culpa absurda.

Aff!!!! Cansei da culpa!!! essa sim merece destaque!!! eu e minhas listas intermináveis e claro, a culpa por não conseguir realizar tudo. "Dê preferência pras prioridades!", cacete!!! tudo é prioridade!!! hellllooooo!!!

Cansei de rótulos que destacam as "baixíssimas" calorias e a ausência de gordura trans. Tá, admito que são nesses que me jogo e adoro comer sabendo exatamente quantas "pouquíssimas" calorias têm aquele iogurte, mas cansou tá legal?! Quero comer sem ter que calcular nada. E quero ficar bem com isso.

Cansei de burocracia, de papelada, de fila de espera, de formulários, de nº de protocolo, de atendimentos eletrônicos e mais ainda, de atendimentos “reais” com pessoas “finíssimas” do outro lado da linha com o incrível dom de não lhe informar absolutamente nada que tenha a ver com sua pergunta, com destaque especial pra galera que cuida de renovações de CNH, processos de cidadania italiana já em andamento e em especial pra galera que atende pelo serviço de internet e telefonia aqui da minha casa. Beijos carinhosos pra todos, ok!

Cansei de aparelhinhos que guiam nossas vidas... Celulares com câmeras de foto e vídeo, integrados à internet, rádio fm e o escambau. Checar torpedos, chamadas perdidas e e-mails é quase um ritual cabalístico pra muitos de nós. Cadê aquela delicinha que é dar uma desligada no motor pra tirar os pés do chão sem a menor culpa? Urghttt!!

Cansei de números, prazos, agendas, datas, "beba mais água", "coma menos sal", "use protetor solar" e aquela voz ordinariazinha do GPS te mandando virar, retornar e tals... (Não tenho, mas tô sempre no carro de alguém que tem e fico pas-sa-da).

Cansei muito das placas de sinalização de São Paulo! São espetaculares e admito, exemplares, porém, tem umas tais plaquinhas "fdp" que indicam "Desvio" devido à obras ou interdições. Essas plaquinhas laranjas indicam o tal "Desvio" e de repente, sem mais nem menos, somem! E lá estamos nós, num lugar inóspito, sem mais nenhuma certeza de rota!!

Cansei de me levar tão a sério. Segurar, frear, parar, contar até 10, inspirar e expirar... Urghtttt! Cadê as emoções e desenfreadas que deixam o dia mais coloridinho? Claro, ponderação é uma coisa, agora, ficar se levando a sério o tempo todo é uma chatice sem fim! Pensar em tudo, calcular, ponderar, analisar, se auto-criticar antes de tudo... Putz!! Ser adulto é um porre!! Deve ser por isso que tem tanta gente correndo pro psicólogo. Dia desses uma amiga queridíssima lançou: “Meu, fecha os olhos, pensa numa luz azul e respira”. Quase tive uma síncope e cogitei seriamente em fazer isso algum dia no carro – em movimento.

Cansei de gente fraca, gente que te suga, que tira sua energia, gente mala, gente maldosa, gente invejosa que te mede dos pés a cabeça, gente que te olha e te julga, gente que se encosta, gente carente, gente doente, gente fútil, gente grossa, gente apática. Aff!! Vai desgrudando de mim encosto!

Cansei de coisas que não tem volta, não tem conserto, não tem ajuste. Coisas que desbotam, destoam, desencantam; Cansei da vida real não ter "ctrl + z" nem plaquinha de "entre a esquerda para retornar" ;(

Cansei de futilidades, papinho, gente chata, medíocre, hipócrita, gente burra, gente mal-educada, “gente que não se respeita”, gente que se comporta muito mal, gente que trata os outros como brinquedo, gente que não pede licença, não diz por favor, obrigada e nem até logo. Gente que sai pra comprar cigarro e fica lá uns 5 anos. Gente que atravessa sinal fechado, gente que sai por aí achando que pode ir e vir, entrar e sair sem bater na porta antes (aqui escrevo no sentido literal, no sentido figurado e em todos os outros sentidos que a gramática permitir).

hmmmmmm... hoje, particularmente mais chatinha que o normal.

24 de junho + Run Baby, Run +

Eu preciso de um tempo. Preciso de um trago. Preciso de pausas. Preciso de idas. Preciso de algo amargo descendo pela garganta. Eu preciso apenas de um tempo. Preciso de um tempo. Preciso de pausas... Não, nada lento ou paralisante, nada disso! Só pausas. Simples, delicadas, caridosas, reflexivas, calmantes, relaxantes... Eu só preciso de um tempo. Preciso de um trago. Preciso de pausas. Preciso de idas. Preciso de algo muito amargo descendo pela garganta... Eu preciso de um tempo. Eu preciso muito de um tempo. Não me ame agora e deixe pra me odiar só depois que eu puder sentir tudo. Não me toque agora e deixe pra me esquecer só quando eu conseguir dizer tudo. Não tente... por favor, não tente... nem agora e nem depois de tudo. Eu preciso de um tempo. Eu preciso - mesmo - de um tempo.

14 de junho + "Os anjos têm uma visão melhor da discreta diferença entre o certo e o errado" +

Amo minha cidade. Amo desde sempre e sei que vai ser assim pra sempre. Dizem que ela é meio cinza, mas eu discordo. Tem coisas em mim que são a cara de São Paulo. Tem coisas minhas espalhadas por aí, em lugares e lembranças. Tem os parques da infância e os lugares em que morei. Tem as ruas e avenidas intermináveis por onde já me perdi e outras tantas onde já me encontrei. E claro, tem meus amigos, pessoas que tornam a vida bem menos complicada. Nem todos são daqui ou estão aqui - infelizmente. Entre eles, tem uma pessoa de quem eu gostaria de falar, em especial.

Em uma de nossas primeiras conversas - quando ainda éramos ilustres desconhecidas uma para a outra - movida por uma certa confiança, ela descreveu em detalhes uma história delicadíssima de sua vida. Movida por uma liberdade que eu não sei se já tinha, analisei, opinei, meti o bedelho e coloquei o dedo na ferida dela. De lá pra cá as confissões não pararam mais.

Rapidamente e com uma sintonia indescritível, descobrimos afinidades e conquistamos intimidade suficiente, ao ponto de conseguirmos conversar quase que por telepatia, como essa semana, por exemplo, quando eu escrevi míseras 3 linhas desconexas e ela traduziu com perfeição.

O fato é que desde que a amizade começou, de algum modo eu sabia... seríamos grandes amigas. E sinto que ela também sentiu. Não é que ela me entende. Ela compreende. Não é que ela escuta o que eu digo. Ela ouve o meu silêncio. Se for pra se retirar, ela sai. Se for pra ficar, mesmo que calada, ela fica.

Lá na janela dela bate um sol que as vezes falta aqui, na minha querida cidade cinza. Quando ela sai do trabalho, ela pode optar entre andar na calçada ou caminhar pela areia. Ela pode optar em ir pra um barzinho ou pra um quiosque beber água de coco. Quando ela está perdida, dá logo um jeito de se encontrar. Quando ela está triste, escreve coisas maravilhosas, mas quando está feliz, ela se supera. Não sei qual de nós duas escreve melhor (somos fãs assumidas uma da outra), mas isso importa muito pouco agora, já que descobrimos que seremos parceiras na escrita.

Quando ela abre um e-mail meu - quando estou meio sem sal - ela poderia ser blasé, mas é absolutamente incrível e sempre tem algo maravilhoso a dizer. E quando eu faço umas gracinhas e 'reclamo' dos vacilos dos adolescentes engravatadinhos de 35 anos, ela me mata de inveja ao dizer que os adolescentes de 35 de lá, apesar dos vacilos idênticos, pelo menos, são mais gostosos e bronzeados que os daqui.

Eu amo minha cidade, mas as vezes dá uma vontade enorme de correr pra lá... ouvir o barulho do mar, pegar uma praia, caminhar no calçadão, desacelerar um pouquinho e dizer pessoalmente o quanto ela é importante pra mim e o "quanto nossas trocas me fazem bem". Dizer o quanto ela é adorável, especialmente quando diz coisas como "(...) espero até você poder dizer".

Ela mora no Rio de Janeiro. Eu moro em São Paulo. Dizem que tem uns 420 km entre nós. Discordo totalmente.

Fê, amiga: esse é pra você.

(*) No título, a frase é de "Round Here", do Counting Crows, banda que nós duas adoramos e que embalou e inspirou o texto todo.

05 de junho + Lilás, Rosa e Violeta +


"Algumas vezes o esperado simplesmente perde importância
comparado ao inesperado"

Meredith Grey
em Grey's Anatomy

04 de junho + Entre no Meu carro +

Desde domingo estou em outra dimensão... cantando pelos corredores enquanto esse frio gelado bate com força. Simplesmente não dá para parar. Confesso que não me ligo muito em Roberto Carlos. Claro, a não ser por aqueles clássicos e mais que isso, situações clássicas que acabam vez ou outra te fazendo esbarrar nas letras do Rei e daí não tem jeito: render-se é o que resta.

Foi o que fiz domingo. A cada nova apresentação das cantoras no especial "Elas cantam Roberto", era um turbilhão que me assolava. Chorei feito criança e emocionei-me como há tempos não conseguia... Interpretações impecáveis, arranjos delicados e potentes e claro... letras que vão descendo pelos ouvidos e todo o resto... coisas que não sei dizer, enfim.

Infelizmente na exibição da tv Globo algumas apresentações foram cortadas, como Marina Lima, Paula Toller, Adriana Calcanhotto, Rosemary, Mart'nália e Celine Imbert. Lamentável. Nem preciso dizer o quanto isso me decepcionou. Um desrespeito com elas e com todos nós. Porém, aguardemos o DVD pobres mortais.

Amo muito a Adriana e a Marina. Muito mesmo. Porém, neste show, minha preferida sem dúvida é a Paula Toller cantando "As Curvas da Estrada de Santos". É um absurdo. Um show na interpretação, nos arranjos, na levada. Absolutamente perfeita. Eu já havia ouvido em outra oportunidade, com o Kid Abelha, mas agora me pegou de um jeito...

"Se acaso numa curva eu me lembro do meu mundo, eu piso mais fundo, corrijo num segundo... Não posso parar. Eu prefiro as curvas da estrada de santos, onde eu tento esquecer... Um amor que eu tive e vi pelo espelho na distância se perder..."

Não consigo mais parar de cantar! Linda, linda, linda. A Paula e a letra. Quem puder, procure pela versão de estúdio do Kid. Vale muito a pena. Para deleite, um vídeo antigo, enquanto o DVD não sai...

31 de maio + Pássaros +

video

28 de maio + Pensamento. Paz. Tempo. +

"(...) Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o teu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurre em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa"

É só o que me interessa
Lenine


Lógica. Pensamento. Paz. Tempo.
Pausa. Intuição. Acaso.
Alcance. Desejo.
Infinito.
Só.

25 de maio + “A vida é um Demorado Adeus” +

Foi com essa frase parada no meio da garganta que comecei a leitura do texto. A edição deste mês da revista "Bravo!" nos presenteia com uma entrevista bela e comovente com a lindíssima Fernanda Montenegro. Concedida a Armando Antenore, o que encanta acima de tudo é a forma clara e passional com que Fernanda fala sobre algumas questões tão delicadas e comuns a todos, de modo geral. Sinceramente, hoje haveria vários motivos... mas sem dúvida, o que mexeu comigo e me levou aos prantos foi a sutileza das coisas ditas pela atriz. Entre outros, segue um trecho perfeito:

"(...) Nunca roubei, nunca matei. Se impedi alguém de alcançar a felicidade, não me dei conta e peço desculpas. Peço perdão até. Não me julgo perfeita. Longe de mim! Carrego minhas zonas escuras, mas também umas zonas legais. Então... Elas por elas.

Que zonas escuras?

Sou rancorosa. Lógico que rejeito o sentimento e me policio: "Vamos largar de besteira!". No entanto... Ressinto-me igualmente de não ter mais disponibilidade para os amigos e a família. Às vezes, exagero na reclusão. Distancio-me de meus afetos. Quando penso nos colegas que se foram e na atenção insuficiente que lhes dediquei... Flávio Rangel, Renato Consorte, Paulo Gracindo, Lélia Abramo, Zilka Salaberry, Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Autran... Convivi tão pouco com o Autran... Sorte que, às vésperas de morrer, ele me mandou uma carta, comovido. Falava de coisas doces. Foi provavelmente a última carta que redigiu. A vida não passa disso, de um demorado adeus (...)"

Trecho da entrevista, disponível também - na íntegra - no site da "Bravo!"

E pra assistir: "Viver sem Tempos Mortos", monólogo sobre Simone de Beauvoir. Em cartaz no Sesc Consolação (rua Dr. Vila Nova, 245, São Paulo, 3234-3000). De 20/5 a 28/6.

Com o coração na mão.
Foi exatamente assim que eu fiquei.

21 de maio + Entrelinhas +


Em mim é clara a lembrança do dia em que terminei de ler "Budapeste", romance de Chico Buarque, agora adaptado pro cinema. Na bolsa eu carregava 2 livros técnicos sobre telejornalismo e espetacularização da notícia. Ótimos, sem dúvida. Mas podiam esperar... No colo, era o romance do Chico que me acompanhava e... [suspiros] tirava meu fôlego, me levava pra Budapeste, me trazia pro Brasil, me jogava na cama da Kriska, no sofá da Vanda, no escritório (quartinho) do José... era imprevisível, mas ao mesmo tempo tinha um 'que' de verdade escancarada.

E os passos dele... todos muito bem justificáveis, mas claro, emputecedores aos olhos femininos mais revoltos. Tinha a espera velada da Vanda e a entrega fatal da Kriska... Lembro que eu estava sentada em um daqueles bancos de madeira, num corredor aberto do primeiro andar que dava pra o térreo da faculdade e dali eu podia ver aquela imensa praça de alimentação, o vaivém desordenado, um barulho infernal... nada me tocava. Nem o tumulto, nem o tímido alvoroço que ainda residia em mim devido a alguns fatos terríveis ocorridos na véspera, nem as mudanças que eu teimava em negar, também ocorridas há alguns dias dali.

Simplesmente me tomou. Me envolveu e fez o que quis de mim. Entorpeceu até meu último fio de razão. Entendi mais sobre entregas, sobre sabores, gestos, risos que a gente dá assim, simplesmente porque faz bem sentir certas coisinhas... as tais coisinhas, enfim. Sabe o que acontece quando a gente abre os braços? A gente ganha um abraço. E sabe o que acontece quando a gente fecha? Pois é... O livro me fez pensar em tantas coisas e lembro que na época foi bem bacana permitir esses tais pensamentos... Claro, sábio como sempre, justamente agora, em meados desse quase final de maio de 2009, o tempo resolveu me colocar novamente diante de todo aquele sentir...E mais uma vez, de alguma forma, amanhã Budapeste vai tocar meu coração exatamente em um momento hiper delicado. E eu vou sorrir, afinal. Sábio tempo.

Pois bem, voltando a 2004... eu, no banco de madeira... ali, imersa, pensando no quanto aquele livro havia mudado algumas das minhas concepções, aberto meus pulmões... Eu queria enxergar mais o mundo e durante alguns instantes eu jurava que podia viajar apenas com o fechar dos olhos. Falei tudo isso porque acontece ainda hoje em dia. É gostoso quando me pego exatamente nessa situação. Com esses pensamentos infinitos, tão possíveis. É gostoso quando sou permissiva comigo mesma e mergulho em paz. Quando me perdoo. Quando me dou de graça pras pequenas belezas da vida. Corro pra minha paz e nessas horas, fica tudo tão doce... E não tem imprevisto, nem desilusão anunciada que consiga me destrilhar (sic).

Budapeste é mesmo um daqueles livros que te fazem pensar: "porra! eu queria ter escrito isso!". E Chico Buarque... sem palavras. Pra nossa sorte, a partir de amanhã, em um cinema bem pertinho de todos nós! E pelo que andei lendo, vai valer muito a pena!!

06 de maio + Mentre Piove +


"E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
Quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
Quando eu estiver fogo
Suavemente se encaixe"

Skank
"Sutilmente"

05 de maio + Tell me your secrets, and ask me your questions+

"Come up to meet you, tell you I'm sorry
You don't know how lovely you are
I had to find you, tell you I need you
And tell you I set you apart
Tell me your secrets, and ask me your questions
Oh let's go back to the start

Running in circles, coming tails
Heads on a silence apart

Nobody said it was easy
It's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start

I was just guessing at numbers and figures
Pulling the puzzles apart
Questions of science, science and progress
Do not speak as loud as my heart
And tell me you love me, come back and hold me
Oh and I rush to the start

Running in circles, Chasing tails
Coming back as we are

Nobody said it was easy
Oh it's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be so hard
I'm going back to the start"

The Scientist
Coldplay

Simplesmente não sei o que dizer.
E mesmo se eu soubesse, talvez não soubesse como fazer.
Por hoje, digamos que a tradução perfeita pro que diz o meu peito é esta primeira estrofe.

01 de maio + Já pra pista! +

É feriado.
E a vida... a vida as vezes parece um quarto desarrumado cheio de peças de roupa no chão...
Nós sabemos.
Mas deixa!!
Já pra pista!!
Vai com tudo e de uma vez!

Hora de dar um tempo a si mesmo. De ficar debaixo do sol, agradecendo pela tarde convidativa. De colocar as pernas pro ar e rir sozinho. Ria do que deu certo, comemore, agradeça, cante. E se não deu certo ainda, acredite, mentalize, sonhe mais!! Quem disse que tava na hora de parar??

Hoje é dia de ir.
Encontre seu caminho e simplesmente vá.
Sem muitos porquês.
Apenas a delícia do ir.
Tudo fica melhor assim, vai por mim.

Quem sabe você não viaja pra bem longe só com a batida da deliciosa "Beggin", do Madcon (*)? Pensando em tudo, aprendi uma coisinha: não devemos esperar que a vida seja convidativa o tempo todo e que venha nos chamar, nos levar... nós é que devemos deixar nosso salão de festas interno sempre pronto pra próxima balada!! Sempre!!!



(*) trilha perfeita embalando o novo comercial da Adidas

+ Apenas Deixe +

"Não importa o que o passado fez de mim. Importa é o que farei com o que o passado fez de mim."

Jean-Paul Sarte

+ Apenas Sinta +

“Os que fazem amor não estão fazendo apenas amor: estão dando corda ao relógio do mundo.”

Mário Quintana

+ Apenas Queira +

"Depois que um corpo comporta outro corpo nenhum coração suporta o pouco."

Alice Ruiz

+ Apenas Seja +

O que é pouco é nada. O que é medo atrapalha. O que é ponderação atrasa. O que eu gosto é de frio (na espinha). Quando se é menos, sobra muito pouco tempo pra ser o que realmente importa.

Esse é meu mesmo.

22 de abril + Sobre o tempo +

De tempos em tempos é necessário deixar caotizar-se em meio ao mundo imperfeito, cheio de defeitos que se desfazem aos pedaços e nos mostram como menos é mais.

Entorpecer, enlouquecer...
caminhos para conseguir se conhecer...

"Felicidade se acha é em horinhas de descuido"
João Guimarães Rosa

21 de abril + Amy Winehouse By Fernanda Young +

"Quem não tiver uma Amy Winehouse dentro de si que se apresente. Vai se apresentar para uma platéia vazia, obviamente, pois nessas ninguém está interessado. Mulheres que não admitem a sua dor – aquelas que são perfeitamente esquecíveis – não merecem nenhuma poesia, ou rascunho, ou rápida melodia, pois se recusam a abrir mão do conforto de uma farsa em nome de uma verdadeira vocação: a de sofrer belamente.

O Drummond escreveu que “a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”. Um verso bonito, além de sábio, porém tipicamente masculino. Mulheres não sofrem por opção, sofrem por evolução. Nós sofremos porque percebemos coisas que os homens ainda não são capazes. Talvez, um dia.

Não há, portanto, a mulher que não sofra – há a que não se mostra. Já que o sofrimento é, para nós, uma espécie de vestido lindo, antigo e bem adornado; um Paul Poiret. À nossa disposição, no cabide. Então usaremos essa roupa, não tenham a menor dúvida. E algumas de nós o farão em público, deslumbrantemente. Como é o caso da Amy.

Você olha para ela e vê que aquela é sua maior aptidão: existir sob esse manto raro, por vezes sombrio, que a cobre. Não há nada em Amy Winehouse que não seja genuíno, e isso consegue ser gritante em sua música suave enquanto doce em sua aparência rude.
Atraente e repugnante ao mesmo tempo. Linda e digna de pena. Ora, pode haver imagem mais explícita da crucial inconstância feminina? Óbvio que é disgusting vê-la toda borrada, sem um dente, com sapatilhas a lhe denunciar as picadas que dá nos pés. Mas também é maravilhoso vê-la tão pequena, antiga de tão moderna, na medida que só os autênticos conseguem ser, e se equilibrar. Mesmo que essa idéia, a de equilíbrio, não pareça muito adequada à Amy. Para mim, é.

Amy Winehouse é um acontecimento secular, tipo Billie Holliday, Edith Piaf. A gente não tem como exigir higiene, ou conduta, ou senso de preservação, ou auto-estima, dessas mulheres. Seria pedir demais."

"Como dizer para essa moça o que ela talvez devesse ouvir? “Ei, Amy, deixe esse cara pra lá, ele não vale tanto a pena.” “Ei, Amy, faz o seguinte: toma no máximo cinco cervejas quando for ao pub.” “Ei, Amy, fume seu baseado, mas deixe o resto de lado.” Imagina a cara que ela iria te olhar?

Pela Amy Winehouse, sinto essa contradição, acho, parecida com a de todas as mulheres. Eu me identifico com a delinqüente, e a mulherona que cobre o Blake de porrada, mas me preocupo, como uma mãe com uma filha, a ponto de rezar por ela todas as noites. Uma reza sincera, para que Deus a proteja, igual faço pelas minhas meninas.

Amy, olha só: você é tão jovem... E quando fico emocionada tenho essa mania, cafona e burra, de usar reticências... Mas não!... Para a Amy Winehouse, não cabem emocionalidades baratas. A triste junkie que habita em mim não suportaria parecer uma mãezona dócil que faz promessa.
Então, mais uma dose. Por que que a gente é assim?"

"Por que bad boys são “os fodões” e bad girls são “as fodidas”? Por que os bad boys são símbolo de liberdade e as bad girls são presas para servir de símbolo? Por que bad boys são assim por rebeldia e as bad girls são assim por sem-vergonhice?
Aparentemente, o mau comportamento ficou de fora das conquistas feministas. Então que seja esta nossa nova luta: pela igualdade de direito de errar. Direito de fazer o que não se deve. De chegar em paz ao fundo do poço.

Dean Martin, Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. e aquele outro, que eu esqueço o nome, bebiam todas, consumiam tudo, comiam qualquer uma – e eram o charmosíssimo “rat pack”.
Britney Spears, Lindsay Lohan, Paris Hilton e aquela outra, que eu também esqueço o nome, bebem uns champanhes a mais, tomam uns analgésicos, dão umas batidinhas de carro – e são as vadias bêbadas e drogadas de Hollywood.

É, o machismo acabou só para as caretas. Para as doidas continua valendo. Acho, inclusive, que as próprias mulheres têm culpa nesse atraso. Notoriamente mais competitivas entre elas, não competem apenas com a colega do lado, mas com todas as mulheres do mundo.

De Marilyn Monroe a Anna Nicole Smith, todas morreram sem uma amiga do lado. Por quê? Porque mulheres não são companheiras na sarjeta. Homens são. Ou seja, encontramo-nos no ponto em que, juntos, chegamos. Não sei se tem alguém torcendo contra a Amy Winehouse, no momento, mas, se tiver, é mulher.

Eu? Eu torço por ela mais do que pela seleção brasileira."

Por Fernanda Young

13 de abril + Nos braços Dele +


O que eu sentia há minutos atrás era sono
que pouco a pouco entregou minha pouca condição...

De braços abertos ele me acolheu em seu colo
transformando seu peito em morada

Eletrificou meu corpo, pêlos e já não sinto mais frio
Nem sono

De costas bem eretas meus olhos bateram nos dele tentando mostrar alguma resistência aquele laço que se formava ao meu redor. Inútil tentativa. Tão veloz quanto minha intenção eram os lábios e de adormecida, despertei de súbito.

Quis as mãos, a textura, os sentidos... O som cortante da voz sussurrada. Todos aqueles pedidos velados, as palavras rabiscadas em nossas entrelinhas, a respiração ofegante e o suspiro longo pedindo por mais uma dose - da mesma bebida.

Enquanto os pêlos da barba roçavam até a última linha do meu corpo, meu atrevimento o puxava pra perto. Queria aquela pressão sobre meus lábios, paralisando meus sentidos.

Fico com esse gosto em mim quando a noite - insistente - simplesmente não termina.

Enquanto acendo.
Enquanto durmo...

Nos braços dele.
No colo dele.
Com ele...

... em mim.

01 de abril + Além do que eu já te disse +

Fiquei tranquilo.

Quando a saudade for simplesmente incontrolável, absolutamente fora do meu estado normal de concentração e aos pouco paralisar meus movimentos, deixando dias e noites irreversivelmente lentos, sim saberá.

Saberá quando por pura e sensorial saudade, meus ossos, músculos e pulsação converterem-se todos em pensamentos para você, e sofrerá. Saberá por meio de atitudes intempestivas, por meio de ligações desenfreadas, choros abissais, a insistência em manter-me sempre presente em seus dias, de uma distância onde eu consiga, no mínimo, sentir seu calor.

Minha saudade entregará todos os meus desvios, transformará meus planos em simples roteiros de histórias infantis. Quando a saudade gritar dentro de mim, lhe contarei das formas mais diversas, deixarei que saiba o quanto meu corpo arde pelo seu, deixarei que veja meus olhos encharcados, não temerei e nem terei vergonha das coisas ridículas e sem nexo que eu direi a você. Mergulharei em mim e de modo imperfeito e quase inconcreto, derramarei minha saudade a teus pés.

Quando de tanta saudade eu desenfrear, direi a você tudo que eu penso sobre nossa relação, sobre meus medos, minhas soluções, meus deslizes e impulsos desconsertantes. Mudarei meus objetivos, focos e não mais responderei por mim.

Mas isso amor... isso é tão... humpft!
Escrevo como se fosse novidade... como coisa que você não soubesse... como se eu já não tivesse feito isso, como se já não tivesse te mostrado...


Marília

29 de março + Deixa eu te levar +


Playlist pra ficar com aquele gosto nos lábios...

* Tolerância - Ana Carolina
* Luz dos Olhos - Nando Reis (na voz da Cássia)
* Snow Patrol - Chasing Cars
* Snow Patrol - Crack the Shutters
* Kings of Leon - Closer
* Cat Power - Love And Communication
* Kerli - Bulletproof
* The Libertines - Can't Stand Me Now

E claro, um pouco de silêncio.
Por favor.

"Deixa eu te levar
Não há razão e nem motivo pra explicar
Que eu te completo
E que você vai me bastar, eu sei"

trecho de Tolerância,
Ana Carolina

22 de março + Simples e Urgente +

Todo o Sentimento
Chico Buarque


"Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente

Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente

Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu"

Chico Buarque nos mostrando as coisas mais simples e urgentes da vida... Sinceramente, são estas as verdadeiras condutoras de tudo em mim. São elas que me encantam dias afora. Sim, claro, as coisas tem caminhos próprios e quase inevitáveis, fazendo de nós meros passageiros assustados. Contudo, perfeito é enlaçar assim, sem maiores porquês. Perfeito é encontrar caminhos naturais pra dizer coisas como: "te encontro com certeza, talvez num tempo da delicadeza" e fazer-se entender.

a você, dono dos meus ais:

te adoro
e não haveria como ser diferente
a esta altura, velar isso de teus olhos não teria cabimento
sendo assim, confesso minha total desproteção e entrego minhas declarações mais explícitas

adoro, assim, desse jeito que você já sabe
e é assim que os dias seguem
as vezes mais, as vezes... sempre

e como são doces os dias...

20 de março + De manhã, do teu lado +

Por que fez de mim tua
por tomar minhas horas sem minha permissão e me fazer adorar-te
por que beber de tua água é envaidecer
apelos, teus, meus, a correnteza é tão explícita
explicar-te a mim de nada adiantaria... a teu lado já sou mais do que entendo

12 de março + Ao amanhecer +




"O eterno é logo ali,
depois do sim"

07 de março + Fake Dolls +




Conflitos existenciais,
confusões sentimentais,
erros casuais,
esperas sensoriais...

Desejo passional,
desestrutura emocional,
cansaço físico e mental,
tensão pré menstrual,
descontrole hormonal,
ditadura corporal e o
meu inferno astral

Quem aguenta esse barulho interno, afinal?


06 de março + Mas tenha cuidado +



Existe um céu para as mulheres inspiradas?
Um daqueles tipos de refúgios particulares, sabe? existe?

Ah! Sei... virando ali à esquerda? Ah, tá...
Não, não é ali... Ali eu já fui... e caí.

Quebrei meu salto...


Faça o que achar melhor, mas faça a meu lado.
Faça o que tem que fazer, mas tenha cuidado...


02 de março + Sua +

"Eu só quero que você saiba
Que estou pensando em você
Agora e sempre mais
Eu só quero que você ouça
A canção que eu fiz pra dizer
Que eu te adoro cada vez mais
E que eu te quero sempre em paz

Tô com sintomas de saudade
Tô pensando em você
E como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você

Mas te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem

Eu só quero que você caiba
No meu colo

Porque eu te adoro cada vez mais
Eu só quero que você siga
Para onde quiser
Que eu não vou ficar muito atrás

Tô com sintomas de saudade
Tô pensando em você
E como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Mas te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem

Eu só quero que você saiba
Que estou pensando em você
Mas te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem
E que eu te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem"

"A Sua"
Marisa Monte


só quero que você saiba...

20 de fevereiro + No Elevador +

Ela me diz coisas meio sem sentido e me deixa perdido,
ela quer me enlouquecer
Ela me chama no canto e enche os meus ouvidos
de coisas que eu já não quero saber

E quando o dia acaba, ela me olha de lado
e diz que é pra eu me conformar
Com o mundo errado e que é do meu lado
que agora ela resolveu ficar

Roçando a língua nos lábios ela me olha sem medo
e começa a descontrolar
Me diz que aquele estrago já estava feito
antes mesmo de a gente chegar

Ela quer me enlouquecer, me revirar, me entorpecer,
Ela tem o dom de me deixar perdido pensando onde eu deveria estar


Eu me isolo do mundo, eu mergulho no fundo dessa insensatez
De cima eu olho pro mundo, nem parece tão fundo, e lá se vai a minha lucidez

E quando ela descobre onde eu me escondi
volta e resolve me atormentar,
Se pinta toda e gruda do meu lado, dizendo que eu preciso pirar
Eu tomo mais um gole e já quase de porre eu desisto de fugir dali

Ela quer me enlouquecer, me revirar, me estremecer,
Ela quer me atrapalhar, me confundir, me ver implorar...
Perder o foco, largar o barco, me jogar...


Ela me chama de lado e diz que eu tô errado
quando eu tento me apaixonar
Ela acha estranho esse meu jeito leve de apenas deixar rolar

Mas o que ela não sabe é que agora em mim
as coisas andam todas no lugar
E daqui do meu mundo eu sei bem o que é melhor pra mim,
E o melhor mesmo é me controlar

Ela quer me enlouquecer, me desconsolar, me entorpecer
Ela acha que me conhece e que sabe bem como eu devo fazer


E quando eu me despeço, eu já vou indo embora,
ela resolve me acompanhar
Entra no elevador, desliga o meu motor
e começa a me envergonhar
Vai gritando bem alto o que ela acha de tudo e sem pudor,
sem nem se importar
Ela dispara pro mundo o seu nojo de tudo e que ali não é seu lugar

Ela quer me enlouquecer, me envergonhar, me ver corar e arrepender quando acordar
Ela acha que ali não é o meu lugar e diz pra todo mundo que eu já não sei jogar


Ela quer me descontrolar, me viciar, me arrebentar na espera
E esse jogo eu já joguei, já ganhei, já apanhei
Não foi nada ruim, mas "nem tão bom assim", nem tão fullgás

Foi algo assim sem sal, meio carnaval... com chuva
Meio cama sem par, jogo de azar, estrela... sem lua

Ela quer me enlouquecer, me derrubar, me ver chorar e adormecer sem me importar
Ela me apavora com esse jeito intenso de se entregar


Eu fico assim, meio sem saber, e eu vou deixando ela se enrolar
De minha parte o que eu devo fazer, se é só ela sabe como me entreter...
"Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar"

Quando o Carnaval Chegar
Chico Buarque

Ah... Chico!! [se todos fossem iguais a você... tantas palavras se perdem... tantas]


17 de fevereiro + Colido e Escapo +

Flores pra pedir perdão e enfeitar o seu jardim.

Provavelmente existem formas menos tortuosas de encarar certas coisas... mas a vida é mesmo um perigo e estamos todos assim, quase sempre a um passo, quase sempre a beira de um suspiro intempestivo...

Durante um bom tempo eu acreditei fielmente em anjos, até que finalmente consegui tocar as mãos de um de verdade - e era fria.

As vezes parece muito, as vezes parece menos
as vezes ficamos assim, com o coração na boca
mas existem coisas que realmente não devem ser comentadas

devem ficar ali, no cantinho, no gelo, sumindo... como coisa inacabada, como coisa de outros tempos, como coisa de outra vida... como uma daquelas horas, atrás de uma brisa com cheiro de lavanda


Das decisões difíceis...
precisa dizer mais alguma coisa?

as vezes as respostas estão justamente nas coisas que ninguém ousa dizer
(ou em letras tão intensas como a desta música)

08 de fevereiro + Tradução +

"Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia

Que ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia

E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio pra dar alegria"

Todo amor que houver nessa vida
Cazuza



Depois de um tempo dirigindo (um bom tempo), a troca das marchas acontece por osmose... Já os pensamentos... tudo correndo numa velocidade incrível... E no som, de repente Cazuza. Comecei a cantar, cantar, cantar... pronto.

Fiquei a noite toda cantando "todo amor que houver nessa vida". Fiquei a noite toda pensando na sorte, no amor tranquilo, no embalo da rede, no pão, na comida, no inferno, no céu, na sede, no tédio, no veneno, no mel, na melodia, na boca, na nuca...

06 de fevereiro + Na ponta dos pés +

Eu gosto das sutilezas.
Mas nem sempre é o que prefiro.
As vezes o que eu gosto mesmo é de um atrevimento discreto e elegante.
Incendiário.
Algo de que não se possa fugir.
Algo de que não se queira fugir.



"Não fosse isso /
e era menos
Não fosse tanto /
e era quase"

Paulo Leminski

04 de fevereiro + Blasé +

Ao final, afinal, achei tudo tão blasé.
Tive vontade de... depois vontade de... ah! aff!
Fez menos sentido ainda.

+ Believe in Me as I Believe in You +

01 de agosto

"The indescribable moments of your life"

Tonight, tonight

+ Se eu soubesse como parar... +

08 de julho

Se eu confessasse o quanto eu gosto de você, talvez você me achasse louca.

Se eu confessasse que sou louca, talvez você entendesse porque eu gosto tanto de você.


Se eu me jogasse mais aos seus pés, talvez você disesse aos seus amigos que eu não presto

E talvez, finalmente, se eu realmente não prestasse, já teria ido até você, esfregado sua hipocrisia na parede e seu resto de vergonha na cara no limbo

Se eu achasse isso que você faz tão errado assim, eu não estaria nessa com você

Se eu gostasse de ficar assim com você, ficaria por mais tempo por perto, mesmo achando tudo isso uma puta sacanagem

Se mais do que sacanagem o que fizéssemos fosse um pouco além e se nesse além eu pudesse ver ao menos uma fresta do teu coração, aí não seria mais sacanagem

Se eu gostasse de ver você me olhando e só olhando, me comendo e só comendo, me deixando e só deixando, talvez eu deixasse você fazer tudo isso acima, mas como eu quero tudo de uma vez, forte e pra sempre, talvez demore ainda um bom tempo pra você ou alguém conseguir simplesmente me frear.

+ Sorte ou Réves +

08 de julho

Quando éramos crianças e tudo era indiscutivelmente mais fácil, a sorte era decidida em um simples jogar de dados. Andávamos as tais casinhas e lá estávamos nós diante das famigeradas cartinhas de cor laranja... Sorte ou Réves são os nomes das cartas do Banco Imobiliário, brinquedo clássico da Estrela, que fez a alegria de muitas crianças por tardes a fio.

Só que no mundo adulto, real, nada é tão bonitinho como as casinhas e bairros vizinhos no tabuleiro do querido "Banco". Aqui tem trânsito, gente se xingando no trânsito... tem a sorte e a réves batendo a toda hora em nossos ombros e nos deixando assim... com cara de "que?".

A sensação que eu tenho é de que sempre estou buscando, procurando, me arrumando pra algo... indo ver algo, indo atrás, ligando, pensando, jogando, escrevendo, dizendo... e sempre para alguém... Como se as consequências daqueles meus atos na direção dos outros pudessem de algum modo respingar em retorno para mim.

No "Banco", jogávamos os dados e andávamos. Era um jogar e um andar e pronto. Erámos nós fazendo coisas por nós para nosso benefício. Agora, sinto o contrário. Me sinto distante de mim mesma. Como se eu estivesse jogando e não andando. É como se o jogar de dados da minha vida adulta fosse um jogar rezando para que caia na casinha certa e naquela casinha alguém venha empurrar minha cadeira de rodas ou ligar meu balão de oxigênio...

Parece que não é mais algo por mim, mas sempre uma falta de ar, uma busca, um balão de oxigênio bombeando ar de forma descordenada, desordenada e eu, desesperada tentando inalar. Sorte ou Réves para o dia de hoje? Não sei dizer. A vida passa rápido demais e as vezes jogar os dados fica tão complicado... Direcionar os pinos na direção certa então, nem se fala...

+ Bilhetes, lembretes, poemas e recados +

01 de julho

Te acordaria aos beijos, abriria as cortinas para o sol iluminar seu corpo, faria suas torradas e seu café.

Encheria nossa casa de flores, decoraria tudo com móveis claros e aconchegantes. Em nossa cama, muita maciez e almofadas aos montes, para nos acolher nos finais dos dias.

Na geladeira sempre haveria queijo, pão, vinho e frutas. E o que mais se precisa para ser feliz?

Buscaria suas roupas na lavanderia, iria arejar nossos cobertores e edredons, usaria lavanda pela casa e separaria seus livros por ordem alfabética.

Misturaria suas meias às minhas em nossas gavetas e deixaria nossos sapatos todos amontoados uns sobre os outros, só para lembrarmos, todos os dias, que somos uns do outro.

Deixaria bilhetes, lembretes, poemas e recados espalhados em pequenos papéis pela casa, só para te encantar e roçaria minhas pernas nas tuas, todas as noites, antes de dormir.

Propositalmente deixaria o cheiro do meu cabelo em sua camisa pela manhã, para você lembrar de mim o dia todo.

Seria mais organizada, deixaria que você guiasse meus passos e riria todas as vezes em que discordássemos sempre dos mesmos assuntos.

Eu casaria com você. Simplesmente, assim, como eu acho que deve ser. Eu e você.

de volta, a pedidos

+ Fragilidade +

30 de junho

Com a fragilidade dos teus medos, te vejo a me olhar
São tão delicadas tuas sentimentalidades que me fazem ficar parada por horas, na sua imersão
E recolho meus medos pra derramar no seu mundo
Quando rezei por dias e noites, jurei que te amaria até a exaustão dos meus ossos,
e derrubei por inúmeras vezes minhas percepções sobre a dor, a subestimei
Criei em torno de nós um palácio, e para sentir a maciez das suas mãos tocando as minhas, bastava fechar os olhos
Sobrevoei teu céu e nem cogitei recuar quando vi teu chão desfeito. Tentei entender mais do que o que seu pequeno coração demonstrava e quis dissipar as nuvens que embaçavam sua vidraça, mas meus braços me traíram e de forte, me fizeram quebradiça
Por meus dedos escorrem os vestígios do que devia ser concreto e volto a fragilidade
Olhos abertos e não enxergo um palmo a frente, só tua doce figura perfeita, agora desfeita
Desfaleço na sua frente, impactando em tua muralha, te assusto e são com os olhos revestidos de beleza que enxergo o que mais ninguém vê...
Tua prumada, teus dedos a dedilhar canções, tuas notas em forma de orações, tuas súplicas, tuas verdades veladas e as escancaradas... tua obviedade subjetiva, seu corpo, sua entrega
Repito que a fragilidade me assola, mas mais frágeis são teus medos, tão dispersos nos meus erros
E delicadas são nossas vozes, os pulsos, punhos, a respiração e assim, em mim a dúvida: ainda toco seu céu com a palma das minhas mãos?

+ O descompasso dos passos na direção errada +

20 de junho

E lá estava ela acordando novamente com aquela sensação... E pra dizer bem a verdade, acordando uma ova! Quem disse que ela havia dormido? Já com os planos em mente desde a noite anterior, aquele intervalo entre a noite e o dia havia sido um mero passar de horas...

Perfumada e com um brilho luminoso nos olhos, sabia exatamente onde tudo aquilo iria dar e apesar de já ter se programado para aquele momento, ao chegar, sentiu como se todos os "planos" estivessem desfeitos e dali, enquanto ele dirigia, ela olhava pela janela do carro... já sem planos nenhum.

Mais do que os planos, o que ela também viu escorrer pelo ralo foram os sonhos... ali, escorrendo... como se fosse algo "escorrível"... como se não fosse concreto! ops! e não eram mesmo... (Santa paciência!!) nem os planos nem os sonhos, e por fim, após a festinha, claro, não havia príncipe, cinderela, sapatinho e muito menos, planos e sonhos.

Pela miléssima vez e de novo, de novo... (Santo Deus!), ela pensou que seria algo diferente, algo palpável, algo do tipo "hum, vou te levar pra casa, gatinho!", mas ele não é uma pelúcia e nem ela é uma ladra, então... voltamos ao desconcertante momento em que ela percebeu a inconstância dos atos, o despropósito de estar ali, o descompasso dos passos dados na direção errada...

Era tudo outra vez, de novo, pra variar, como sempre... o mesmo discursinho vazio, patético e cafajeste. O mesmo cheio de fim de festa, o mesmo beijo seco, afinal, ao final, o mesmo gosto de "só isso", no final, afinal. A mesma solidão inconcreta e rarefeita, aquela que ela sente sempre (sempre e sempre) ao final de mais uma de suas histórias incompletas e desfeitas.


Nada é mais rarefeito do que um monte de nada tentando ocupar um monte de espaços vazios...

...nos desconcertantes momentos em que se percebe a inconstância dos atos,
o despropósito de estar ali, o descompasso dos passos dados na direção errada...

"eu vou contando as horas... e fico ouvindo passos... quem sabe o fim da história... de mil e uma noites de suspense no meu quarto..."

+ Do seu Lado +

+ 06 de Junho +

Tudo que eu queria era que você me ensinasse a andar
Quando finalmente achei que tivesse aprendido, entendi...
O que eu queria mesmo era que caminhasse a meu lado.

Havia mais flores no caminho
Certamente você saberia o que fazer, mas eu...
Decidi que iria apenas olhá-las

Juro, não faço idéia do que fazer quando saio do prumo...
Tudo que eu preciso é você dizendo "tudo bem, faça"
Preciso do seu consentimento para invadir sua vida
Você entende isso?

Tudo que eu preciso é não pensar em mais nada e nem ficar achando que há sempre algo a entender
E você rindo absurdamente quando eu começar a enlouquecer

15 de abril + Ready for the Floor +

"(...)
Ao teu encontro, Homem do meu tempo,
E à espera de que tu prevaleças
À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,
Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te
Conheças
E convides o poeta e a todos esses amantes da palavra,
e os outros.
Alquimistas, a se sentarem contigo à tua mesa.
As coisas serão simples e redondas, justas.
Te cantarei
Minha própria rudeza e o difícil de antes,
Aparências, o amor dilacerado dos homens
Meu próprio amor que é o teu
O mistério dos rios, da terra, da semente.
Te cantarei
Aquele que me fez poeta e que me prometeu
Compaixão e ternura e paz na Terra
Se ainda encontrasse em ti, o que te deu."

Hilda Hilst
Poemas Aos Homens Do Nosso Tempo

Coloquei a ponta dos dedos em meu lábio e senti o sangue ainda quente.
Meu sangue, ainda quente.
Dali não vi mais nada.
Tarde demais.

08 de abril + Ainda em mim +

"Viver é desenhar sem borracha"
Millôr Fernandes

Do alto dos meus devaneios foi que te vi.
Todo branco, com sua beleza as vezes manchada e as vezes encoberta pelas nuvens.

Nada mais quis ver quando aos meus braços se enlaçou.
Nada mais quis ter quando tua vida a minha alcançou.

Há ainda em mim tudo que somos nós.
Há ainda.
Em mim.
Ainda.
Nós.

30 de março + Cheiro de Neblima +

Sentada, já com um copo na mão, ela lia seu último livro. Havia comprado há duas semanas mas não tinha tido paciência para começa-lo. Julgou aquele momento propício.
Já estava no segundo café e não tinha a menor pressa em termina-lo. Gostava de engolir e ficar com o gosto do café por alguns instantes na boca, senti-lo e só depois, voltar a outro gole.

Dessa vez, não por ansiedade, mas sim por inércia, havido chegado antes do horário combinado, além do que, queria ambientar-se bem ao local escolhido por ele, ficando assim mais segura; Os cabelos estavam soltos e os punhos e colo, cobertos. O frio já não era tão impiedoso, mas sair de manhã ainda exigia certa proteção. Esse foi o modo que Marília escolheu para prostar-se diante de Fernando e ouvir o que ele ‘tinha para dizer’. Sim, afinal, apesar de calado, ao lado dela, punha-se a falar numa velocidade inalcançável para outros ouvintes. Entendiam-se, mas tanto entendimento exigia momentos de silêncio. Momentos estes, talvez, mais impiedosos do que o frio que começava a partir. E dessa vez, ele havia a procurado e a incitado, dizendo ‘aquelas coisas’ que ele sempre diz, e por fim, afirmando que havia ‘algumas coisas’ que ele ainda precisava dizer.

Já passava das 10 da manhã quando o vento ameaçou de leve e balançou a toalha de sua mesa. Ela simplesmente adorava o cheiro das manhãs de domingo. Manhãs, que ela gosta de dizer, tem “cheiro de neblina”. Para Marília, havia algo especial com aquelas manhãs. Ele sabia. Propositalmente havia escolhido aquele local, de modo que Marília, prestando ou não atenção, suavemente sentiria a brisa trazendo o tal cheiro, de neblina, ao seu encontro.

- Não, não, não! De onde você tirou isso Fernando?
- De lugar nenhum, Má. Ou melhor, de todos os lugares. Você fez questão de me mostrar.
- Mostrar? Questão? Ok Fernando. Pode começar a traduzir o seu diálogo porque chegamos naquele ponto clássico onde eu paro de entender o que você pára de explicar.
- Não é questão de explic...
- Nando, pelos céus, pelo amor que um dia houve – e que foi absoluto e intenso – se você for passar o resto da eternidade deduzindo meus ais, morreremos a míngua do nosso amor, os dois.
- Mas o que era aquilo então? Por que tantas vezes quis te dizer tantas coisas e não sabia por onde começar? Não sabia em que mundo te achar. Percebe Marília, você me coloca em situações desoladoras.

Pausa.
Marília fecha os olhos e pisca longamente. Vira a cabeça para o lado como se buscasse fôlego e sem que ninguém peça, chega a mesa outros dois cafés grandes. Marília retoma o olhar em Fernando.

- Quando com a palma levantada me acertou, Fernando, chorei e quis por um instante supor que te odiaria para sempre, mas a mesma palma me acariciou e de joelhos, pediu meu perdão e de renascida, fiz-me tua novamente. Agora não me venha tacar pedras pois eu jurei nunca mais derramar uma lágrima sequer em teu nome, Fernando. Não me acuse injustamente de algo que eu nem cometi.
- Não estou te acusando, entenda. Estou dizendo que para mim estava tudo muito claro. Vi e revi, refiz teus passos, teus cálculos e enxerguei sim, Marília, enxerguei o que de ti consegui ver.
- Ver sem me enxergar, Nando? Supõe que vê, mas a mim não lança nenhum olhar. Vê o que quer ver. E digo mais, vê por que quer ver. Prefere a desolação que encontra em tuas verdades criadas do que a realidade que minha vida te entregaria. Baseia-se na dor de outrora para tomar-te como tua e não vê, enfim, que de ferida também fui eu e que de algum modo tive que aprender a nadar na tua tempestade.

Ouvir da boca dele que ela o colocava em situações desoladoras, a desmoronava. A levava a um estado de consciência vazio, mergulho na escuridão, aquela velha máxima que ela passaria talvez a vida inteira tentando entender. As verdades e os porquês dele, sempre tão imutáveis, suas verdades criadas para se defender.

- Então me mostre afinal teus ais, Marília. Onde esconde tuas preciosidades e porque julga as minhas interpretações tão imprecisas? Mostre onde estou errando quando de ti julgo o que vejo sem te ver. Porque para mim, Má, está sim tudo claro, tudo ali, tudo que é você.

Haveria ali um momento de exaltação, e ela lançaria mão de todo seu discurso, usaria todas as palavras possíveis para se ‘defender’, se ‘explicar’ e de Fernando não obter nada mais do que o já conhecido olhar de reprovação. Exitou. Sentiu novamente o cheiro forte de ‘neblina’ que os enlaçava naquela manhã e quis sussurrar palavras doces em seu ouvido.

Ao contrário de outras vezes, sentiu Fernando por perto. Sentiu por bem mais do que poucos instantes, a presença infinita de Fernando em sua vida e ali se viu segura. Se viu acolhida nos braços dele, independente da situação e muito mais independente ainda do que havia sendo discutido ali.

Como se no silêncio houvesse mais respostas do que nos discursos batidos de ambos, ficaram calados e enfim perceberam a importância daquele momento. Já não havia explicações a dar e nem porquês a entender. Pela grandeza da história em si, maiores explicações virariam meras formalidades aquela altura da vida.

- Fernando, seremos os dois errados se formos analisar todos os passos dados. Não por erros de interpretação, mas pelo fato de que há tempos, nossos passos já não são em nossas direções. Dirigimo-nos a outros mundos. Retiramo-nos de nossos mundos e de lá, seguimos. Olhar para meu mundo com seus olhos não te mostra para onde eu fui, entenda. Mostra apenas onde estou, mas isso não muda em nada quem eu sou e o que sinto. É isso que espero que entenda e carregue com você. Assim como eu carrego.

26 de março + O sono dos anjos +

Abri o livro na inútil tentativa de fugir de mim e de meus pensamentos, que apontavam todos para o recente ocorrido. Impossível.

Comecei lendo os agradecimentos, que eu adoro, mas as vozes estavam altas demais dentro de mim e eu só conseguia pensar mais, abominar mais, indignar-me mais. Até que cheguei no delicado momento em que, mais do que pensar e repudiar, eu estava a um passo de deixar que aquela história me ferisse.

Nesse ponto encarei de frente os fatos, olhei fixo pra dentro e vi coisas quebradas, rasgadas os fragmentos mal passados. Sim, eu estava a um passo de começar a sofrer com aquilo.

Voltei os olhos para o livro. Me deparei - pela segunda vez - com uma frase e fui salva. Pelas mãos de Hosseini veio o "eu vou amar você para sempre", dedicado a sua Roya.

Claro como água me vi novamente diante do que por tantas vezes já estive, mas fugi. Esse tal, pra sempre. A verdade imutável de que amores são ternos e eternos de tempos em tempos me assombra. Fica comigo um tempo e também por vezes, me deixa. Perco a crença “nessas bobagens” por um tempo, mas rapidamente volto a minha essência e vejo tudo ali, todo meu deslavado romantismo e crença total nos amores eternos e puros. No meu amor. No quanto posso ser e fazer por alguém.

E foi só por causa dessa frase tão linda que eu pude me concentrar e segurar “na unha”; não permitir que “aquele” recente ocorrido me ferisse. Os espinhos estão todos por aí, cabe a nós, mais do que desviar, arranca-los de nossos jardins.

Espero apenas, sinceramente, ter forças para não odiá-lo. Não por ele, que não merece nem meu ódio, mas por mim, afinal, preciso seguir em paz e odiá-lo levaria um tempo a mais, que honestamente, não tenho mais.

Juro. Juro que procurei mil formas de fazer isso; rondei meus sentimentos, ignorei o quanto as mágoas me feriram, quis não ser drástica, mas não tem jeito. Só há um modo de fazer isso. Só há um modo de encerrar os ciclos. Encerrando.

06 de fevereiro + O resto da minha alegria +

Amor, porque me pede?
Por que tomá-las de mim?
De nada adiantaria, de nada...
Se perdeu sua capacidade de voar, porque implora assim, desse modo velado e tão seu, por minhas asas?
Sim, eu daria, sabe disso.
Mas o que faria com elas?
Me deixaria te ensinar a voar, de novo?
Acho que não...
Por isso te peço, amor:
Não mais me peça, assim como também não mais beba de minha sanidade, não mais alimente suas buscas com minhas palavras, não mais vele sua saudade esfregando em minha cara suas verdades, tão certas para você e não mais desfaleça deste modo em minha frente, como se por falta de... de... nem sei, minhas asas não fossem moldadas para os seus braços. Não amor, por favor, não.